sábado, 10 de abril de 2010

HENRIQUE - A VISÃO DOS SENTIDOS


Henrique é um rapaz de boa família, e boa situação financeira. Nasceu no Paraná, mas mudou-se para Rio de Janeiro ainda recém-nascido. Mas era simples, nunca lhe subiu a cabeça todo o bem material que possuíam.

Talvez porque desde o seu nascimento aprendeu a ver a vida de outra forma, menos materialista e mais maduro, emotivo,valorizando o que realmente importa,vivendo cada segundo como o último. Sorrindo, viajando, se divertindo com amigos, namorando.

Ele nascera sem visão alguma, nenhum médico descobrira a causa e ele vive sem um diagnóstico de sua deficiência visual até hoje, nos seus 18 anos de idade. Seus pais viajavam, procuravam os melhores médicos e nenhum tinha um diagnóstico seguro do problema de seu filho caçula.

Sua irmã mais velha, Lara, era totalmente o inverso, mesmo com 20anos, ela ainda não havia amadurecido como mulher, agia como uma adolescente consumista, que comprava tudo que lhe interessava sem preocupar-se com o preço, gastava os cartões de crédito do pai, nunca gostou de estudar, formou-se em administração, não por gosto, mas por exigência e chantagem do pai. Ela e Henrique nunca foram amigos, mal se falavam, não tinham nenhuma afinidade, e ela fazia questão de não ter. Ela dizia que teria que suprir a carência dos pais de algum jeito, depois que ele nascera, tudo e toda atenção era pra ele. Sua mãe sempre negara, dizia que a filha tinha a mesma atenção que ele, que se dava um pouquinho mais de atenção e cuidado a ele, é porque ele precisava mais.Ele era mais calmo, nunca discutia com ela, sentia-se culpado às vezes por ter nascido e ter dado motivo pra irmã agir assim. Ele a amava muito, queria vê-la sempre feliz.

Ele foi crescendo, e sua mãe ensinando-o a andar na casa sozinho, ficar independente, ir para escola sozinho, andar na rua sozinho. Ela lhe ensinava que mesmo ele sendo deficiente visual, ele tinha olfato, audição, paladar, e principalmente tato para conhecer e fazer o que ele quisesse. Que sua deficiência nunca deveria ser motivo de obstáculo para ele não fazer algo que realmente quisesse. Ele era um rapaz muito inteligente, tinha ótimas notas na escola,pois só uma escola comum o aceitara, era como uma recompensa por tê-lo aceito lá, mas ele vivia isolado, raramente um vinha para brincar com ele, ele se sentia muitas vezes excluído. Os únicos amigos eram os primos mais velhos que ele, Lucas e Renato, que brincavam muito juntos,se divertiam,saiam juntos. Esses dois primos,assim como toda a família o amavam,o aceitavam como era. Seu pai,quando ele completara 10 anos lhe dera uma bengala para auxiliá-lo nos seus passeios,sua ida vinda da escola. Era um lindo menino, desde pequeno, tudo indicara que seria um belo rapaz, com seus olhos esverdeados, pele morena, magro, alto.

A única moça que lhe interessava, que o fez se declarar,ria dele,nem sequer olhava para ele,raramente dirigia a palavra a ele,e quando fazia era para comentar dos outros rapazes,elogiando-os,o coração de Henrique ficava partido,se sentia rejeitado,sua juventude não foi nada fácil.

Mas o tempo foi passando, ele crescendo, se aceitando como era, apesar de não ser fácil, andar nas ruas, calçadas, era tão difícil quanto se aceitar, pois nada era adaptado, dificilmente encontrava sinalizações no piso, ou braile, tinha que andar na rua, pois as calçadas tinham desníveis, poucos rebaixamentos, buraco,ás vezes ele até caia,tropeçava, quase foi atropelado na esquina. Estudava, saia com os primos,conversavam,riam, e Renato lhe apresenta Maria, uma moça muito bonita, ele sentiu quando passou a mão pelo seu rosto. É inteligente, simpática, educada, meiga eles conversaram muito, ele gostou do jeito dela e ela do dele.

Encontraram-se algumas vezes junto com os primos dele, e cada dia as afinidades aumentavam, e o carinho de um pelo outro também, até que ela decidida como era o beijou e ele correspondeu ao beijo com muito ardor e paixão, daí começou o namoro.

Um dia em que estavam sozinhos em seu quarto, e depois de muito amor, ele perguntou a Maria:_meu amor, você enfrentaria tudo e todos por mim e comigo? Eu não quero ofendê-la com esta pergunta, mas muitas vezes pensava nisso. Tenho medo de você me deixar, não aguentar a barra do preconceito que certamente aconteceria por você estar junto de um cego como eu, com tantos homens interessantes no mundo.

Ela simplesmente o beijou e disse: Eu Te Amo Henrique, meu amor! Sempre soube da sua deficiência, isso nunca foi obstáculo para estar com você e amá-lo como te amo. Eu sei que sofreremos preconceitos, e que tem muitos homens interessantes no mundo, mas não para ficar comigo, quero só você. Eu enfrentarei tudo e todos por você, e estarei sempre ao seu lado. Quero ficar com você para sempre. E, por favor, tire essas coisas de sua cabeça, independente do que digam por aí, eu estou com você porque te amo, não sou mulher de ficar com alguém por dó, seja o motivo que for.

Isso o deixou emocionado, era a declaração de amor mais linda que ele já ouvira nessa vida. Ele agradeceu pelo que disse, choraram juntos e voltaram a se amar, com mais intensidade que antes. Pois para ele, houve uma grande confiança e certeza, ela era o amor de sua vida, que ele tivera muita sorte,que nem todos deficientes têm a sorte de receber a declaração de amor que ele teve,ou melhor, não têm a sorte de encontrar uma pessoa que os ame, como ela o amava e que ele amava demais.

Isso deu a Henrique segurança, mais força e vontade de viver, de ser feliz, de realizar seus sonhos, como ser fotógrafo. Ele fez seu curso de fotografia, formou-se, ela se formou em engenharia elétrica,eles se casaram,viajaram o mundo, tiveram aventuras radicais, como voar de asa delta, para-quedas, eles trabalhavam muito, sofreram preconceito, ambos pelas profissões que resolveram seguir. Porque nem todos acreditavam que ele poderia tirar fotos sem ao menos enxergar vultos, ele tirava fotos, brigava por seus direitos, mostrava que aquela profissão, era não só seu sonho, seu hobbie, mas também seu grande dom, já que fotografava natureza, monumentos importantes, que seus outros sentidos o faziam “ver” o que seus olhos não podiam.

Mas ela o apoiava, comprava a briga dele por seus direitos, acreditava nele,o admirava,orgulhava-se dele, e ele orgulhava-se dela, pela ótima profissional que ela estava se tornando a cada dia,pela barreira do machismo que ela vinha atravessando e superando-os.E por ela brigar quando os homens a assediavam ou tentavam humilhá-lo por sua deficiência.

Sempre se amavam, o amor deles foi tão verdadeiro e intenso, que ela engravidou, e desde a barriga, ela dissera ao seu bebê que o seu pai era muito especial, que talvez também sofresse preconceito, mas que o pai dele o amava muito, mesmo antes dele nascer,que o estava esperando ansioso.E que ele deveria respeitá-lo,amá-lo e defender o pai,acreditar nele mesmo e no pai sempre.Que independente do que falassem sobre ele ou os pais,ele deveria apenas acreditar,ter fé em Deus,em si mesmo e no que superaram ,enfrentaram para ter uma profissão,serem respeitados,admirados,e esses pais o amarão sempre.

Que o importante é sempre persistir no sonho, enfrentar o que for preciso para realizá-los, sempre honestamente, sem pisar em ninguém, porque o mundo dá voltas, e quem você pisa hoje, pode ser quem te estenderá a mão lá na frente, quando precisar. Por isso todos são dignos, humanos e independe se é diferente dele, merece atenção, respeito, no mínimo boa educação, porque ninguém é melhor ou pior que ninguém, mesmo que digam isso a você. Ela conversava muito com o filho, mesmo ainda em sua barriga. Henrique ficava cada dia mais apaixonado por ela, vendo-a grávida e linda.Ricardo nasceu sem nenhum problema, “perfeito”, grande, lindo, puxara o pai fisicamente e o jeito da mãe, inteligência e força dos dois.

Todos foram felizes, superando barreiras, demonstrando o que são capazes de fazer, enfrentando preconceito, discriminação nas ruas, pelas pessoas e pelos governantes que ignoram a presença dos deficientes na cidade, mesmo eles pagando impostos (não todos, mas maioria), contas, sendo cidadãos como qualquer um.

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