Tudo estava limpo e cheiroso, no entanto, Laura sentia que tudo estava uma bagunça e limpava mais uma vez. Sua irmã mais nova, Alana, era seu oposto, pensa em uma garota desligada de tarefas domésticas, firme, de personalidade forte.
Lauara é a mais velha, e cresceu sob o domínio de uma mãe obcecada com limpeza e controle. Sua mãe vivia nervosa, e quando aquela garotinha fez 12 anos, a mãe passou a comandar a filha na limpeza, ao invés de ela mesma limpar. Dizia que não tinha mais coluna pra limpar a casa. E a menina foi sentindo cada dia com mais medo de irritá-la, pois os gritos, ofensas, puxões de cabelo, chineladas eram o seu castigo, se não fizesse algo como a mãe gostava. Ela só ia á escola pela manhã e voltava correndo para arrumar a casa. Há muito tempo ela deixou de ter infância, ou uma vida, sequer sabia do que gostava, pois mal tinha tempo para pensar em si mesma.
Já Alana amava dá uns "perdidos" nas duas e ficava na rua com as amigas conversando, se divertindo, pois assim escapava de apanhar, e de arrumar a casa, e sobrava tudo para a irmã. Ao contrário de Lauara, a mais jovem de 15 anos enfrentava a sua mãe, e ameçava de denunciá-la se tocasse nela, pois desde muito nova aprendeu sobre seu direitos. A irmã tinha 21 anos e nunca teve coragem de enfrentar a mulher que lhe deu a vida. Aquela mulher não era amorosa, nem paciente, e fazia dos dias da filha um filme de terror, e mesmo assim, já uma mulher, ela respeitava sua mãe e morria de medo do que a mãe pudesse fazer com ela se a irritasse muito, e também de ser abandonada por ela. Tinha momentos em que sentia muita raiva de sua mãe, até a odiava, afinal, ela era humana, e depois se culpava pelos sentimentos que teve.
Alana dizia que ela era louca, que gostava de sofrer, que a mãe delas deveria ser presa por maus tratos, que deixou de amá-la faz tempo, que só ficava naquela casa até fazer 18, e depois sumiria nesse mundo.
Vocês devem estar se perguntando: cadê o pai delas? Na verdade, o pai delas sumiu. Elas eram pequenas quando ele foi comprar as coisas para comerem, e nunca mais voltou. Só ele trabalhava, então elas precisaram de ajuda dos outros para terem comida em casa, e aos 6 anos, Lauara precisou começar a trabalhar vendendo balas e doces nas ruas depois da escola, e quando fez 15, ela conseguiu trabalhar como doméstica para pagar as contas da casa, e é o que fazia até pouco tempo atrás. E desde pequena sua mãe pegava tudo o que ela ganhava, e só tinha roupas novas quando as velhas já estavam muito gastas. Sua mãe, Elizabeth, a fez acreditar que aquilo era o certo. Ela nunca soube o que é ter amigas, sair com elas, se divertir. Sua vida era ir para a escola, trabalhar em casa e depois na casa dos outros, estudar quando tinha um tempinho, e dormir depois. Após a formatura no colegial, sua vida passou a ser apenas trabalho em casa e fora dela. Aquela jovem mulher não sabia o que era ser feliz.
Sua irmã agora com quase 18 propôs que as duas fugissem quando ela completasse os 18, e procurassem algo melhor para elas. No entanto, Lauara não teve coragem de deixar a mãe sozinha, e nem coragem de enfrentar o mundo lá fora.
No entanto, Elizabeth começou a ficar muito fraca, emagreceu muito, ficou muito amarela, sem apetite, com uma dor na barriga que não passava, e em dois meses ela faleceu, pois não quis ir ao médico, mesmo com as duas insistindo bastante. Com a autópsia descobriram que ela estava com câncer no fígado já em estágio avançado, mas que se alastrou muito rápido pelo seu corpo, impossibilitando até mesmo um tratamento. As duas então resolveram vender o imóvel e saírem dali, mas Lauara sofreu muito, se sentia desamparada, solitária, apesar de tudo que a mãe tinha feito pra ela. Elas venderam na primeira oferta que fizeram, pois precisavam de dinheiro para saírem dali e também terem uma vida nova, apesar de ter sido menos dinheiro do que esperavam. Apesar da tristeza, as duas tinham uma fagulha de esperança de viverem de verdade.
Elas viajaram para uma cidade grande e longe dali, onde ninguém as conhecia e ficaram numa pousada até se adaptarem e encontrarem um lugar pra ser delas. Aos poucos foram fazendo amizades, arrumaram trabalho, pois encontraram uma patroa que Deus mandou para dar-lhes uma chance para elas que não tinham experiência e ensinou-lhes sobre flores. E aquelas mulheres mostraram sua gratidão através de dedicação ao que faziam.
Lauara e Alana dividem um apartamento, um lugar onde podem ser elas mesmas, têm paz, curtem com seus amigos, trabalham em um lugar que aprenderam a amar o que fazem. São mulheres com personalidades diferentes, mas que se completam .
Lauara ainda lembra da mãe de vez em quando, mas com o tempo o perdão veio, juntamente com o alívio de agora não viver mais com medo, e se sente grata a Deus por tudo que tem hoje, e sabe o que é ser feliz, apesar de ainda ser um pouco obcecada com limpeza e organização, afinal, nada é perfeito, mesmo porque ninguém é.
Alana ainda não perdoou a mãe, mas vive sua vida da forma que sempre quis, e não se preocupa com casa, já tem alguém em sua casa que faz isso. Ela também sabe o que é ser feliz, livre e ter paz.

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