sexta-feira, 4 de setembro de 2026

ENQUANTO O CORAÇÃO ESPERA

 

Eu sou Melissa, e tenho trabalhado arduamente numa empresa de uniformes, para me manter e ajudar meus pais, Francisco e Celina, que mesmo aposentados após trabalharem tanto tempo na roça, mal conseguem pagar as contas e comprar remédios.

Eu sou muito grata a eles por tudo o que nos ensinaram sobre a vida, especialmente, como sermos seres humanos melhores. Tenho dois irmãos mais velhos, que mal os visitam ou ligam pra saber como estão os pais. Eles nem cobram mais os filhos, pois a desculpa é sempre a mesma: que estão muito ocupados com trabalho e família pra cuidar.

Meu coração corta ao vê-los tão solitários, portanto, eu os visito todos os dias depois do serviço, levo algo para comermos e passamos  um tempo agradável juntos. Aos domingos eu os levo a Igreja no meu fusca vermelho, e depois passeamos um pouco.

Meu maior lazer hoje é decorar minha casa do meu jeito e fazer bordados enquanto assisto a tv à noite, ah, e amo cuidar das minhas flores enquanto ouço músicas no rádio. Minha mãe se preocupa de eu ficar tanto em casa, ou com eles. Ela brinca que tenho trinta, mas pareço ter a mesma idade dela, 80. Que a vida é curta e sou muito nova. Ela teme que eu me arrependa quando estiver mais velha, e não ter feito amizades, saído mais, namorar, casar. No entanto, eu fiquei tão decepcionada com falsas amizades e falsos amores que prefiro estar só. Não quero sair magoada de novo. Duas amigas me trairam saindo com meu primeiro namorico; falavam mal de mim pelas costas, pois tinham vergonha do meu jeito de vestir e ser, riam de mim. Namoro pra mim é quando chega pelo menos ao noivado. E isso estava longe de acontecer com qualquer um deles. Quando viam que eu estavam apaixonada, eles simplesmente falavam que não queriam nada sério, e terminavam o relacionamento, ou faziam com que eu soubesse que estavam em outra. Eu fiquei muito desiludida e magoada.

 Yan apareceu na minha vida quando passeava com meus pais em um domingo. A gente se esbarrou, e confesso que quando escutei sua voz se desculpando meu coração acelerou e as pernas bambearam, mas tentei disfarçar. Ele tinha olhos puxados, cabelo liso e castanho no ombro,camisa de cetim,calça de couro, parecia um cigano, uma voz rouca. Nós começamos a nos encontrar em todos os lugares, como em filme de romance em cidade pequena. Vocês sabem, né? Se deparavam por acaso o tempo todo, até que ele me convidou para sair quando eu estava na padaria comprando pães para comer com meus pais. Pensa em um homem gato. Ele realmente mexia comigo. A gente se encontrou, e ele foi tão sedutor nos gestos, beijou até minha mão enquanto olhava nos meus olhos. Eu deveria ter imaginado, pois quando a esmola é demais, o santo desconfia. Minha mãe me disse pra eu tomar cuidado, pois não teve bom pressentimento em relação a ele. Ao mesmo tempo que eu queria ouvi-la e me afastar, tinha um imã que me puxava pra ele, era mais forte que eu, e nossos encontros eram tão especiais, encantadores. Sim, eu tive mais uns três encontros com ele, e no último não resisti e m entreguei a ele. Foi literalmente o último, pois no dia seguinte nem deu sinal de vida, não me atendia, me bloqueou. Depois descobri que ele era um homem sem apego a nada, nem ninguém.  Foi embora da cidade e da minha vida. Chorei muito, estava devastada e fechei meu coraçao. 

Não sei se um dia o abrirei novamente. Sei que ainda existem homens que valem a pena, mas não tive a sorte de encontrar. Sei que mereço amar e ser amada, só não sei se vai acontecer. A vida é assim, nem sempre as coisas acontecem como desejamos. 

Enquanto nada demais acontece,eu vou curtindo a companhia dos meus pais, e curtindo o meu lar, decorando-o, bordando meus panos e cuidando das flores. 





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