Renata tem refletido muito sobre sua vida nestes últimos dez anos: O que tenho feito para mim mesma? Sua vida tem sido só trabalhar mais de 12 horas por dia, numa empresa de publicidade; cuidar da casa e pagar contas; cuidar dos três filhos: um de oito, outro de dez, e uma mocinha de treze anos; agradar o marido; dar assistência aos pais; fazer o possível para dar atenção às amigas. Ela se sente tão pressionada a ser perfeita, a dar conta de tudo ou quase, e só guardando tudo isso para si mesma, aguardando o mínimo de reconhecimento de quem amava, embora soubesse que estava exercendo sua vocação de mãe e esposa. Renata sente que incomoda os outros se conta seus problemas. Sente que os problemas dela são tão insignificantes, como se só os outros tivessem problemas maiores, até mesmo seu marido dizia que reclamava de "barriga cheia". Ela o ama, mas nesses 15 anos de casamento, ela tem percebido que o amor não é mais o mesmo do começo, tem esfriado, está desgastado pela rotina, e sua admiração por ele está acabando dia após dia. Ela se sente solitária mesmo casada, pois ele não é o parceiro que imaginou e que necessita. Ela sabe que as coisas costumam mudar com o passar do tempo, pois com o dia-a-dia o amor se modifica, já não existe mais aquela paixão do começo, mas ela não sabe o que fazer com o que vem sentindo, e sente que seu relacionamento está por um fio, da parte dela.
Eles se conheceram em uma lanchonete. Ela estava com as amigas conversando e ele com os amigos dele, mas nem prestava atenção nas conversas, só ficava observando-a, até que ela foi ao caixa pra pagar a parte dela, então tomou coragem, se aproximou de forma educada, disse que desde que a viu não conseguiu tirar os olhos dela, se apresentou, perguntou se ela poderia dar uma chance pra ele, e então, lisonjeada e solteira, ela pensou: "ele era gatinho, e tem atitude", o que ajudou-a decidir a dar uma chance pra Ronaldo. Trocaram número de telefone, começaram a conversar direto, saíam juntos. Depois de uns dois meses se conhecendo, ele a pediu em namoro, e como Renata já estava envolvida, encantada, ela aceitou. Namoraram por três anos, e seis meses depois eles casaram em uma cerimônia simples, intimista, mas bonita. Não teve os gastos que um casamento tem nos dias de hoje, em que há mais uma competição para ver quem faz tudo mais bonito e mais caro que o outro, do que realizar um sonho. O vestido dela foi feito por sua mãe costureira, mas ficou do jeito que Renata sonhava: no estilo medieval, com corpete e uma saia comprida, porém, sem cauda, com renda nas mangas, ao invés de tecido, e comprou o véu, que cobria seu rosto na entrada da igreja. Foi o dia mais feliz da vida dela antes dos filhos.
Ronaldo não trabalha há mais de três anos, desde que a última empresa em que trabalhou o registrou. Nunca trabalhou mais de um ano em um mesmo lugar, e às vezes ele consegue algo temporário, mas reclama de tudo, na verdade, ele nunca gostou de trabalhar. Sua mãe sempre o mimou muito, e pagava tudo para ele, já que é filho único e tinham uma condição financeira muito boa, então ele nunca sentiu necessidade de trabalhar. Ela sabia que ele nunca tinha trabalhado, mas imaginou que quando casasse ele iria ter a responsabilidade de homem, de provedor da família, no entanto, isso não aconteceu, e ela precisa administrar tudo. Ela diz que ele precisa arrumar um emprego, pois está muito pesado dar conta de tudo sozinha, mas ele a ignora e a chama de chata, que não vai trabalhar ganhando pouco e trabalhando muito. Renata entra no banheiro e debaixo do chuveiro deixa a água escorrer por seu rosto enquanto chora. Ela anda exausta, sem energia, se sentindo sufocada. Renata resolveu conversar abertamente com ele, enquanto os filhos dormiam.
_Ronaldo sente aqui, por favor, pra gente conversar um pouco.
_O que você quer? Aposto que é pedir pra eu trabalhar, se for isso, não quero nem papo. Ele disse de um jeito grosseiro e impaciente.
Ela só olhou para ele sem dizer uma palavra.
_Eu tenho sentido tanto sua falta, seu carinho, saudade de ficar abraçada com você enquanto assistimos a TV, dormirmos de conchinha, de sairmos só os dois para termos um encontro, como fazíamos quando éramos namorados. Eu tenho me sentido tão cansada, exausta, na verdade, de dar conta de tudo sozinha. Quando era mais nova, antes de namorar você, meu primeiro namorado e homem, eu dizia para mim mesma:
_Renata, você não ficará casada com alguém que não cumpre suas obrigações de pai com as crianças, nem com as tarefas de casa, já que não vai morar só. Você nem ficará com um homem que não provê a casa, já que essa é a principal obrigação de um marido, prover o lar, sua família. Você não precisa passar por isso. É independente, bonita, inteligente, e pode escolher entre ser solteira e viver sua vida, ou encontrar alguém que seja parceiro; amigo; que te ajude a formar uma família; ser bom pai. E tenho mesmo refletido sobre isso Ron. Deveria ter visto os sinais claros na minha frente, mas ignorei, pois estava encantada e era tão ingênua. Eu só tinha 20 anos. Felizmente a empresa onde trabalho me aceitou na época mesmo sem experiência, o que é raro, você sabe.
Ele a olhou com espanto.
_O que você quer dizer com isso? Quer se separar?
_Eu realmente não quero, mas não vejo outra alternativa. Você não tem sido o marido que necessito, e que quero. A igreja diz que amor de verdade é sacrifício, até concordo, mas até que ponto? Tudo tem limite, nada deve ser extremo se está acabando com a gente. Eu disse tudo aquilo sobre como me sentia, a falta que sinto de nós, e o que você fez? Nada, e fez pouco caso dos meus sentimentos, como se eu estivesse exagerando, reclamando à toa. Isso me magoou. São 15 anos casada contigo, mas me sentindo solitária, mãe solo, então pra quê estar casada, se preciso dar conta de tudo sozinha? Tenho pensado em uma solução: Você volta pra casa dos seus pais, tem a vida que sempre quis, vai ter a metade de tudo que conquistamos depois do casamento, que é seu direito, e poderá ver as crianças sempre que quiser, e paga a pensão, claro, mas estará livre de me ouvir te cobrando trabalho, e que faça sua parte como marido e pai. Você será solteiro de novo. Vou conversar com o advogado, e ele entrará em contato com você.
_Como assim divórcio? Eu amo você e nossos filhos, você vai abrir mão de todo esse tempo juntos?E nossos filhos, não pensa neles?Não quero ser solteiro, eu sou casado. Não me deixe.
_Eu já cansei de conversar com você, pois sempre me ignorou. Quem está abrindo mão há muito tempo de nós quatro é você. Quem ama, como diz nos amar, não faz isso. Eu preciso de atitudes que demonstrem isso, não só palavras. Você nunca brincou, ou conversou com nossos filhos, nunca teve paciência com eles, ou comigo. Agora está preocupado sobre como irão reagir? Que exemplo de homem você está dando pra Joice?Já pensou nisso? Então me poupe. Vou me separar pra ter paz. E você também terá o mimo da sua mãe, e gente te bancando sem reclamar, enfim, paz. Vou dormir no sofá. Boa noite.
Ronaldo ficou ali na sala sem reação, parado como estátua, sem acreditar que ela faria aquilo.
Enquanto isso, Renata chorava muito sob a água do chuveiro, pois sonhava viver a vida inteira ao lado dele, pois acreditava que casamento era até que a morte os separe, mas não está sendo assim, e ainda acha que o ama, apesar de tudo. Ela se sente triste, frustrada, com raiva de si mesma por ter aceitado tudo aquilo por tanto tempo. Por que foi tão cega? O que pesa nessa separação são seus filhos, pois sabe que sofrerão muito, mas ela está adoecendo. Como vai cuidar deles doente? Ela também precisa cuidar de si, pois se sente sem energia, insegura, indesejável como mulher, chata, nervosa. Eles precisam de uma mãe feliz, já que educação, limites, e exemplos vêm de casa. Renata quer que sintam orgulho dela.
Ela cuidou do café da manhã das crianças, beijou-os antes de sair, enquanto ele dormia no quarto, e foi para o trabalho. Chegando lá, procurou o advogado da empresa, e pediu conselho pra ele, o contato de um advogado da área e bom pra ajudá-la. Ele passou o contato, e Renata então ligou, marcou uma reunião com dr. Roberto.
Dr. Roberto, advogado na área da família, deu todas as orientações a ela depois que Renata lhe contou o motivo de ter procurado por ele, e entrou com o pedido de divórcio. Não era o que queria, mas no momento não via outra solução. Quando saiu do trabalho passou na casa de sua irmã, Julia, contou-lhe tudo e se abraçaram.
Ela ligou para a mãe, depois que fez janta e deu aos filhos quando chegou. Renata ligou para a mãe no quintal, onde poderia ter mais privacidade, e sua mãe aconselhou-a para pedir ajuda a Deus, pois Ele é o único que pode fazer algo por ela, e que iria orar pela filha. No começo, Renata ficou irritada, mas resolveu tentar, pois não via outra alternativa. Ela orava, colocava seu marido e seu casamento nas mãos do Pai, se derramava para Ele, chorava, pois não sabia mais o que fazer.
O tempo foi passando, e Renata pedia sabedoria para saber como agir com seu marido. Ronaldo foi mudando aos poucos, mas não foi da noite pro dia. Nada é, e com o tempo Ele vai nos curando, nos modificando, se pedirmos. Ronaldo foi procurar emprego e encontrou algo. Passaram -se dez meses, e ele não arrumou um jeito de ser demitido, e começou ajudar Renata a pagar as contas da casa. Renata estava se sentindo grata e aliviada. Ela ligou para o Dr. Roberto e pediu para cancelar o pedido de divórcio. Eles fizeram uma divisão de tarefas, portanto, todas as crianças ajudavam, e ela se perguntou: por que não pensei nisso antes? Renata se sentiu uma idiota, e ao mesmo tempo mais leve sem aquele peso e tensão que sentia nos ombros e nas costas.
Ronaldo não era um homem romântico, nem carinhoso como ela quer, mas ele já tem melhorado muito, até mesmo na relação com os filhos. Tudo isso tem feito com que Renata começasse a buscar mais a Deus, e ser cada dia mais grata a Ele, e falar mais Dele pra seus filhos, que têm visto a mãe mais alegre, tranquila, finalmente feliz.
Os filhos veem os exemplos dos pais, e eles os seguem, para o bem e para o mal. A relação de Renata e Ronaldo mudou e eles agora são quase o casal que ela sonha ter um dia.

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